JOSÉ ANTONIO RODRIGUES
Alegria com responsabilidade
Alegria com responsabilidade
“O carnaval é o momento histórico do ano”, já dizia Machado de Assis, considerado o maior escritor
brasileiro de todos os tempos. “Paixões, interesses, mazelas, tristezas”, completa o escritor que melhor retratou a vida e a alma do povo brasileiro.
Não há na face da terra nenhum espetáculo dessa magnitude. Nem em número de participantes e muito
menos em beleza. Nenhum evento mexe com tanta gente como o carnaval.
A maior realização esportiva do mundo, os Jogos Olímpicos, por exemplo, reuniu em 1998, em Seul, 13.660 atletas de 167 países - um número inferior de participantes até mesmo de um desfile de blocos, ranchos
ou escolas do terceiro grupo do Rio de Janeiro. fim da década, alguns dos metais necessários para a
jornada ainda não tinham sido inventados e a tecnologia requerida para o feito não estava disponível. Mas, ele atirou sua mochila – e a da NASA – por sobre o muro de pedra. O compromisso verbal assumido, não importa quão audacioso e estimulante, não garantia que chegaríamos a nosso destino, mas aumentava
a possibilidade do sucesso.
Uma meta, um compromisso explícito, concentra nossa atenção no objetivo e nos ajuda a encontrar
formas de atingi-lo. A meta pode ser tão simples como a compra de um computador ou tão complexa como a escalada do Monte Everest. As crenças, nos dizem os psicólogos, são profecias autorrealizadas, e quando nos comprometemos, quando lançamos a mochila por cima do muro de pedra, demonstramos fé em nós
mesmos, em nossa capacidade de alcançar um futuro sonhado. Criamos nossa realidade em vez de reagir a ela. Metas e bem-estar: Embora pesquisas empíricas e as evidências anedóticas mostrem claramente a
conexão entre ter metas e ter sucesso, a relação entre metas e bem – estar é menos direta. A sabedoria convencional nos diz que a felicidade tem a ver com a satisfação de nossas metas.
O papel das metas – é nos liberar, a fim de que possamos desfrutar do aqui e do agora.
Se saímos sem destino numa E o que é mais importante: é uma festa democrática e ecumênica. Todos são iguais perante o samba. A alegria não tem dono. É de quem pegar primeiro e ainda sobra.
O carnaval não discrimina ninguém por credo, raça, nacionalidade ou mesmo status social.
Não faltam exemplos. Mas a palavra de ordem do samba - imortalizada pelo compositor Paulo Vazolini - é
levantar a poeira e dar a volta por cima. O recado vale para todo mundo. Não há razão para entregar os pontos e cair no desânimo.
A energia, a garra, a arte, o talento e a generosidade que o brasileiro mostra no pé, podem e devem ser
mobilizados para enfrentar o problema do dia-a-dia e a falta de dinheiro. Mas, as crises e a peculiaridade de cada um têm jeito. E o carnaval prova isso, quando une todas as
classes em torno do samba e da alegria. Pelo menos no carnaval o socialismo não é uma utopia. Os muros
de Berlim, do preconceito e da discriminação, foram derrubados durante os três dias de Momo.
Ao contrário do que costumam dizer certos malamados, o carnaval não é nenhum ópio do povo. Nem
fator de alienação política. Com graça e humor, os sambistas conseguem retratar cada vez mais as nossas desventuras do dia-a-dia. É só reparar nos enredos das escolas de samba nos carnavais das últimas décadas.
Os tradicionais bailes do CAV deixaram de existir desde 1999, por decreto do próprio povo. Assim,
coube à prefeitura assumir esta lacuna e fazer um carnavalzão popular, na sua praça de Eventos, hoje ponto
de encontro natural dos votorantineses. E carnaval ali cai bem: oferece uma alegria bem mais econômica,
oferecendo também a chance para pular e sambar a quem anda com dinheiro contado.
E esta festa deve ser vivida intensamente em alegria e animação. Mas, que a alegria permitida não seja confundida com liberalismos ilimitados, onde a droga e o sexo fácil, a bebida e a falta de raciocínio
possam provocar, já na quarta-feira de cinzas, uma preocupação ainda maior, originando consequências
imprevisíveis, quem sabe danosas. Que os mais jovens pintem a cara também neste carnaval, acompanhados das mesmas responsabilidades com que têm liderado manifestações aqui e acolá para um Brasil Melhor.. Que saiam às ruas ou entrem na Praça da Eventos protestando contra as drogas e a Aids, que matam tão devagar e sofrivelmente, a ponto de impedir até mesmo que a tradição carnavalesca devolva a alegria para os próximos anos.
Seja o carnaval, então, um instante de descontração que aproxima as pessoas, unindoas num relacionamento sem máscaras e sem rancores.



