JOSÉ ANTONIO RODRIGUES
O dia em que Votorantim virou cidade
av. 31 de março O entusiasmo foi tanto que
adotou-se até um slogan: “Rosa dos Ventos - Desenvolvimento em todas
as direções”. A realidade, no entanto, mostrou um início muito
difícil, cheio de sacrifícios.
“Concito a todos à paz e à concórdia para, colocando os interesses do
Brasil e de São Paulo acima de quaisquer paixões, trabalharem
ininterruptamente, imitando as forças da natureza, que não param
nunca”.
Com estas palavras finais, o Juiz da 137ª Zona Eleitoral, dr. Edmar
Carvalho de Lima, procedia à instalação do primeiro governo municipal
de Votorantim, em 27 de março de 1965, há 60 anos, portanto.
Era um sábado e a solenidade ocorreu no antigo cinema, que
posteriormente seria o salão de festas Clube Atlético Votorantim.
Estiveram presentes à solenidade o dr. Armando Pannunzio, prefeito de
Sorocaba; o vereador Francisco Sola Galera, representando o
legislativo sorocabano, o inspetor José Ferreira, representando o
juiz da 1ª Vale; dr. José Aleixo Irmão, Promotor Público; dr. Helio
Rosa Baldy, secretário dos Negócios Jurídicos da prefeitura de
Sorocaba; Otto Wei Neto, secretário da Educação de Sorocaba, dr. José
Ermírio de Moraes Filho e Mathias Gianolla, do Grupo Votorantim e o
padre Antonio Maffei.
Estavam empossados o prefeito Pedro Augusto Rangel, o vice-prefeito
Laurindo Alves da Silva e nove vereadores.
Eles chegaram ao cargo após terem sido eleitos na primeira eleição, em
7 de março de 1965, ou seja, vinte dias antes da Instalação do
Município. Pedro Augusto Rangel, sustentado por uma coligação
partidária liderada pela UDN, obteve 3.297 votos (mais de 60% dos
votos) e venceu Afonso Erra, do PRT, que conseguiu 1.461 sufrágios. O
primeiro vice-prefeito do município, Laurindo Alves da Silva (PTB),
com 1886 votos venceu dois adversários para se tornar vice-prefeito:
José Roque Guerra (UDN), com 1.620 votos e Ezequiel Camolesi, que
conseguiu 996 votos.
Em 27 de Março de 1965, instalava-se a primeira legislatura da Câmara
Municipal, formada pelos vereadores Domingos Metidieri Filho
(presidente), Georgino Marques Dias, Newton Vieira Soares, Pedro
Guerra, Carlos Caldini, José Moreira de Souza Filho, Lázaro Antunes de
Oliveira, José Carlos de Oliveira e Lázaro Alberto de Almeida.
Pronto, tinha início a segunda fase da história propriamente dita de
Votorantim, que iniciara com os movimentos pró-emancipação e com a
realização do plebiscito, cuja votação se deu em 1º de dezembro de
1963, oficializando-a como cidade autônoma, em substituição ao velho
Distrito.
Euforia e colaboração
A euforia da nova cidade permaneceu por um bom período. O povo
votorantinense trocava abraços calorosos pela conquista de tantos anos
de luta. A notícia do desmembramento acabou chamando a atenção de toda
a região e Votorantim transformou-se em um “paraíso” para quem queria
iniciar uma nova vida, pois os comentários que se ouviam sobre a nova
cidade eram demasiadamente estimuladores para as famílias de outros
municípios, devido ser um forte polo industrial, pela presença das
Indústrias Votorantim. Muitos resolveram vir para a cidade,
acreditando em bons empregos e salários, além de melhores condições de
vida.
Começo difícil.
Faltava quase tudo
Sem um prédio à vista para se instalar, sem funcionários, sem
mobiliário. Nada. Votorantim precisava começar sua vida própria do
nada. Foi assim que a luta começou e, praticamentem não parou mais
até hoje.
O primeiro ato, um decreto, assinado pelo prefeito Pedro Augusto
Rangel, nomeava o primeiro funcionário, Messias Skif, como diretor
geral da prefeitura. Outro problema para Rangel: onde instalar a
prefeitura. Daí, Messias sugeriu-lhe que falasse com seu pai, José
Miguel Skif. Este, consultado, de pronto ofereceu o prédio da rua do
Comércio a Pedro, pelo prazo de um ano, sem qualquer pagamento de
aluguel, colaborando assim com a cidade que estava nascendo.
No dia seguinte, Pedro e Messias estavam em Sorocaba, tratando do
termo do desmembramento.
Dia da Instalação
Ao abrir a porta do prédio, que José Miguel Skif havia cedido
graciosamente por um ano, aconteceu até um momento histórico. Ali
estava um morador, que até então havia pago todos os impostos a
Sorocaba, mas a partir daquele dia quis começar a pagar a Votorantim,
“agora uma cidade de verdade”, dizia, enquanto tirava o dinheiro do
bolso.
Ainda em seu depoimento de 1993, Messias recordou que havia sido até
curioso, recebeu pela insistência do cidadão, fez o troco do próprio
bolso e depois colocou na gaveta o dinheiro que havia recebido. Era o
primeiro pagamento de imposto na cidade, feito pelo sr. Francisco de
Paula Roldan, nome que consta também dos arquivos da prefeitura.
Para funcionar a prefeitura, Messias aproveitou a própria mesa que
utilizava em seu escritório, quando era sócio de Obede Carlos de
Campos. Era uma mesa de imbuia e o Pedro Rangel trouxe uma de marfim,
da casa dele, com cadeira e tudo.
Em seguida veio a preocupação com os impressos. Lá foi Messias visitar
prefeituras da região para saber como eram feitos.
A primeira lei de estrutura, criou a Diretoria Geral, cargo ocupado
por Messias, mas apenas por uns quatro meses, até que foram
contratados Wilson Menna, Cândido dos Santos, Maria Ângela Belini e
Carlos Violino.
Num segundo momento, a prefeitura já se abrigava num casarão, cedido
pelo Grupo Votorantim.
Igual com a Câmara
O advogado Edson Veronese, o cnhecido Nelo, hoje com 84 anos, e que
foi o primeiro funcionário do Legislativo, lembra em detalhes o início
difícil da cidade. “A Câmara também se improvisou, utilizando o prédio
de uma antiga facção de tecidos. Éramos dois funcionários, além de
mim, que cuidava de toda a documentaçao: a dona Joana, que fazia a
limpeza, e o “seo” Antonio Souza, segurança à noite.
Ficamos mais de seis meses trabalhando sem receber, porque a
prefeitura ainda não tinha dinheiro. E os vereadores das duas
primeiras legislaturas não tinham salários, desenvolviam a função por
“amor à terra”.
Nelo, que foi o primeiro advogado da cidade a se formar, em 1970,
praticamente passou sua vida funcional na Câmara e sobre aquele início
difícil, Veronese comenta que “nos dias de hoje parece até incrível
que isso possa ter acontecido, mas nos transportando para aquela
época, dá para entender. Aqueles vereadores se doavam por um ideal e
ficou patente. Foram abnegados e a quem a população deve gratidão”.
E considera a realização do primeiro Plano Diretor um marco histórico,
cuja elaboração ofereceu à cidade os rumos para o seu crescimento.



